
Neste ano de 2010 o professor Valdemar Setzer, um dos precursores da Computação no Brasil e um dos mais importantes nomes na história da Computação no país, completa 70 anos. Muitos da área de computação devem lembrar dele pelo livro verdinho sobre bancos de dados (que foi atualizado recentemente), que era bastante utilizado na década de 90. E alguns devem conhecê-lo como uma das poucas pessoas da área de computação que se manifestam publicamente contra o uso abusivo e incorreto de computadores na educação.
Tenho profunda admiração (profissional e pessoal) por ele. Ele é professor aposentado da USP mas, como ele mesmo diz em sua página, está “aposentado mas não encostado”. Continua a orientar trabalhos de graduação e mestrado no IME-USP¹. Publica artigos em sua página e está sempre disposto a dar palestras e entrevistas pelo Brasil afora (clique aqui para ver tudo que ele fez desde 1999).
Conheci o professor Valdemar Setzer em 1992 (ou 1993?) num evento em Natal-RN. O evento (se não me falha a memória) se chamava EINA – Encontro de Informática de Natal e aconteceu no campus da UFRN. A palestra do professor Valdemar Setzer foi “A Miséria da Computação” (clique aqui para ler um resumo da palestra). Leiam abaixo a interessantíssima “definição” dada por ele para o termo miséria da computação (MiCo):
Miséria da Computação (MiCo) é ficar horas tentando acertar um software que simplesmente recusa-se a obedecer, esquecendo-se de ir ao banheiro, comer, namorar, dormir, e fazer quaisquer outras coisas normais para quem não foi agarrado pelo computador; MiCo é gastar um tempão surfando através de lixões na Web, sem conseguir chegar a algum “site” com a informação desejada; MiCo é receber dezenas de e-mails por dia; MiCo é perder tudo o que se está fazendo por falha da energia elétrica, travamento do micro ou por causa de um ralador misterioso que passou pelo disco rígido; MiCo é um software bonitinho mas ordinário, que não tem funções que qualquer software decente deveria ter, ou faz coisas que não deveria fazer; MiCo é o bug do ano 2.000; MiCo é o prejuízo que as empresas têm com a informática; MiCo é a “síndrome do processamento de dados” (SPD), que assola programadores e analistas de sistemas: insônia, falta de apetite, irritabilidade, anti-sociabilidade, desinteresse por tudo, e outros sintomas; MiCo é ainda uma porção de outras misérias causadas pelos computadores nas empresas, nos usuários e nos programadores. Enfim, ela ocorre sempre que se tem vontade de xingar ou destruir o computador que se está usando.
Depois desse evento, interessei-me pelos escritos do professor Valdemar. Não lembro exatamente como consegui vários textos dele, mas lembro que consegui imprimir (e ler) bastante coisa. Fiquei fascinado. Na época a Internet não era como hoje. Se não me engano, eu só tinha acesso a email e listas de discussão. Só tive acesso à WWW a partir de 1994.
Lembro que me identifiquei muito com o que ele falava e escrevia pois ganhei meu primeiro computador ainda criança (em um post futuro comentarei minha experiência com computadores na infância e adolescência). Na palestra ele falou de um menino que passou a pensar sua vida como se fosse um programa de computador. E, o que é pior, escrito em BASIC…
Em 1999, já como professor do CEFET-AL (atualmente chamado Instituto Federal de Alagoas) convidamos (eu e meus colegas da Coordenação de Informática) o professor Valdemar para dar palestras no nosso evento de divulgação da informática: o InfoView. Foi a primeira edição do InfoView e o professor Valdemar foi a grande estrela do evento. Ele foi convidado para falar numa rádio, apareceu na televisão, e suas polêmicas palestras lotaram o auditório do CEFET. O sucesso foi tanto que em 2003 (quando eu não estava mais no CEFET, pois estava fazendo doutorado na USP), ele foi convidado novamente para o InfoView 2003.
Em 2002 e 2003 tive o privilégio de assistir algumas aulas do professor Valdemar Setzer na USP. Não lembro o nome da disciplina, pois participei apenas como ouvinte. Mesmo sendo apenas ouvinte, escrevia os one-minute papers que ele sempre pedia ao final de cada aula. E ele lia e comentava. As aulas eram bem animadas. Certa vez ele cantou um trecho de uma música de Dorival Caymmi (“minha jangada vai partir pro mar, vou trabalhar, meu bem querer…”) e pediu para os alunos cantarem junto. Engraçado é que não lembro porque ele fez isso
Durante as aulas ele dava sugestões culturais (filmes, exposições, peças de teatro) para os alunos e pedia que eles escrevessem resumos sobre o que viram. Lembro que fui ver uma exposição de trabalhos de Renoir no MASP graças a suas indicações. Em algum lugar ele escreveu que pelo menos 25% (1/4) das aulas sobre assuntos técnicos deveriam ser dedicados a assuntos não-técnicos, como discutir e indicar obras de arte.
Lembro que em 2002, quando decidi fazer Doutorado, eu queira que ele fosse meu orientador. Mas, por já estar aposentado e não ser mais tão “produtivo” na área de Computação, ele não podia mais orientar alunos de doutorado.
Com relação aos 70 anos, não sei se está programada alguma homenagem. Acho que pelo menos o IME-USP deve organizar algo (ao que me parece, a USP trata muito bem seus professores aposentados – alguns deles até continuam a ter uma sala lá). Se ele estiver interessado e eu conseguir algum financiamento, organizarei algo aqui no DAINF-UTFPR.
Minha sugestão para os que chegaram até aqui é que leiam o farto material disponível na página do professor Valdemar. Sugiro que comecem pelos três artigos abaixo:
- A Miséria da Computação
- IA – Inteligência Artificial ou Imbecilidade Automática?As máquinas podem pensar e sentir?
- A Missão da Tecnologia
E depois me contem o que acharam… Mas, um aviso, o professor Valdemar é bastante polêmico. Em 2002, quando visitei pela primeira vez o IME-USP me disseram que 50% das pessoas lá gostavam do professor Valdemar e as outras 50% não gostavam… Eu continuo no primeiro time.
Notas de rodapé
1. O IME-USP é, em minha modesta opinião, o melhor lugar para se fazer Doutorado em Ciência da Computação no Brasil. Claro que minha opinião não é muito isenta pois fiz o doutorado lá.
2. Em http://web.archive.org/web/*/http://www.ime.usp.br/~vwsetzer você pode ver como era a página do professor Valdemar Setzer em 1999, 2000, …
14/01/2010 às 22:33 |
Olá, Adolfo,
Seu texto deixou-me muito sensibilizado; fico sempre surpreso quando alguém escreve coisas positivas a meu respeito. É óbvio que comparecerei a qualquer homenagem que me prestem (e duvido que isso vá acontecer), mas se consultado previamente se gostaria de ser homenageado, direi que não. Isso aconteceu em meu departamento: há anos o Conselho dele aprovou que se desse meu nome ao Centro de Ensino de Computação do IME-USP, que criei, mas um colega teve a brilhante idéia de que se perguntasse se eu estava de acordo. É óbvio que não posso incentivar uma homenagem a mim próprio. Afinal, não sou um político brasileiro…
Quanto à canção de Dorival Caymmi (a “Cançao do Jangadeiro”), naquela disciplina eu sempre começava as aulas cantando com os alunos. Isso tinha intenções bem conscientes: fazíamos uma mudança radical em relação ao que eles tinham feito antes da aula, e provocávamos uma união de todos em torno de algo não intelectual (se bem que em cada aula eu adicionava uma explicaçãozinha intelectual a mais sobre a melodia e a letra, para chamar a atenção para a genialidade do compositor, e para que se a cantasse com mais consciência). Neste semestre, estou pensando em fazer outra atividade artística com meus alunos: começar a aula com um pouco de desenho de formas regulares.
Algo que você não mencionou foi que minha visão de mundo, que transparece em meus artigos e livros, é bem diferente da usual. E estou cada vez mais seguro de que ela é mais satisfatória do que as outras, pois estas em geral são desumanas e estão destruindo a natureza e a humanidade.
70 anos… É muita coisa, mas confesso que não sinto o seu peso. Mas isso talvez advenha do fato de eu manter uma atividade física intensa (veja em meu site a descrição da musculação que faço em casa; acabei de vir da Europa, onde aprendi definitivamente a esquiar…), uma atividade intelectual intensa, e atividade artística não tão intensa quanto gostaria.
Queixas? Sim, virei escravo da Internet — se não perco um tempão examinando os e-mails todos os dias, eles se acumulam e aí é o verdadeiro inferno. Resisti a pedidos, e não instalei um blog para não perder ainda mais tempo. Justo eu, que desde 1974 tenho chamado a atenção para os males causados pelos computadores (quando então dei a primeira disciplina no Brasil de impacto social e individual dos computadores (também conhecida como Computadores e Sociedade), fui agarrado por eles!
Abraços calorosos. 14/1/10.